26 February 2019

Ponto de equilíbrio de
exploração do Táxi

Armando Casanova - Economista
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Na gestão de unidades económicas é necessário dispor de indicadores fiáveis que permitam, a cada momento, perceber o andamento do negócio.
No Sector do Táxi, dominantemente constituído por empresas de muito pequena dimensão, os motoristas e os industriais, naturalmente, têm uma visão de gestão centrada no movimento de tesouraria (dinheiro entrado, dinheiro saído, sem atender a certos aspetos económicos da exploração táxi).
Neste artigo procuramos apresentar um instrumento clássico de gestão por custos, de aplicação simplificada, adaptável à gestão de uma unidade económica simplificada como é o táxi.

UNIDADE ECONÓMICA SIMPLIFICADA
Porque afirmamos que a unidade táxi é uma unidade económica simplificada?
Porque o táxi implica um conjunto de custos facilmente determinável (amortização da viatura, mão-de-obra, seguro, manutenção e conservação, energia) e, fundamentalmente, um único produto – o transporte de pessoas (que pode ser contado em diferentes unidades como euros, serviços, quilómetros, etc.).
O indicador que propomos exige, apenas, o conhecimento destas informações, sendo simples de calcular e, portanto, simples de utilizar na gestão de pequenas unidades.
Trata-se do Ponto de Equilíbrio, também conhecido na expressão inglesa por “break-even point”.

O QUE É O PONTO DE EQUILÍBRIO
O Ponto de Equilíbrio é a dimensão de atividade na qual os custos totais são igualados pelo total do rendimento.
Tendo em conta que a atividade táxi se pode exprimir em valor, em número de serviços ou em quilómetros percorridos, o Ponto de Equilíbrio será encontrado no valor cobrado, no número de serviços realizados ou no número de quilómetros percorridos que permitam atingir o equilíbrio.
Neste exercício vamos calcular o Ponto de Equilíbrio expresso no total de quilómetros percorridos.br />
TIPOS DE CUSTOS
Em primeiro lugar, importa qualificar os diferentes tipos de custos, na sua relação com a exploração.
Em qualquer negócio, ocorrem dois tipos de custos, com comportamento distintos: custos fixos e custos variáveis.
Custos Fixos são os tipos de custos que não variam com o nível de atividade, como sejam, no caso do transporte em táxi, o custo de aquisição da viatura e seu equipamento, os custos de licenças e inspeções, os seguros, os custos com pessoal, os custos administrativos.
Alguns destes custos fixos são cíclicos, ocorrendo periodicamente, qualquer que seja o nível de atividade (o seguro é normalmente contratado por um ano, o custo com pessoal ocorre mensalmente, a avença com contabilista é normalmente mensal ou trimestral).
> Outros custos fixos têm caracter plurianual fixo ou variável (o alvará é válido por cada cinco anos, a inspeção do veículo ocorre no mínimo anualmente, a aferição do taxímetro depende da periodicidade de atualização da tarifa).
Finalmente a própria viatura tem um período de vida útil, de vários anos, pelo que o seu custo será distribuido ao longo desse período.
Estes custos são fixos porque não se alteram com o volume de atividade. Se o táxi estiver parado um dia, não se desconta esse dia na avença do contabilista, nem na remuneração do motorista. Também não se suspende por um dia o seguro automóvel, nem o prazo para inspeção automóvel é por isso dilatado.
Pelo contrário, Custos Variáveis são os custos que dependem direta e imediatamente do nível de atividade. Ao contrário dos custos fixos, se não há atividade, o custo variável não ocorre. O melhor exemplo de custo variável é o combustível. Se a viatura está parada, o consumo de combustível é nulo. Logo que inicia a marcha (em boa verdade, logo que liga o motor), inicia-se o consumo de combustível.
Outros exemplos de custos variáveis podem ser considerados, como pneumáticos, lubrificantes e peças conexas, peças de desgaste corrente, baterias, etc., cuja vida útil depende fundamentalmente da utilização da viatura e, portanto, do nível da atividade.
Importa ainda referir que enquanto os custos fixos se relacionam com uma unidade de tempo (mês, ano) os custos variáveis se relacionam com unidades de produto/serviço (no nosso caso, o quilómetro).

Exemplo
Podemos agora construir um pequeno exemplo, utilizando números que não correspondem a qualquer situação concreta (todos os valores são considerados sem IVA).
Note-se que no cálculo do custo fixo foi considerada a situação de um motorista. No caso de dois motoristas, deverá ser considerado um valor duplo de encargos com pessoal, agravado para incorporar a incidência de subsídios de turno e horário noturno. Também neste caso deverá ser reduzido o período de vida útil da viatura, para um máximo de quatro anos, do que resultará um agravamento do custo anual da viatura.

RECEITAS
tabela02

A receita média por quilómetro terá de ser aferida em função das condições concretas de exploração tendendo a:
• Ser inferior quando o peso de longos percursos de retorno sem passageiro seja significativo (o valor da bandeirada é distribuido por maior distância, o tempo tem menos peso).
• Ser inferior quando o peso dos serviços noturnos e em fim-de semana se reduz.
• Aumentar com uma maior percentagem de serviços pequenos (o valor da bandeirada tem maior peso em cada quilómetro).
• Aumentar com a maior incidência de serviços noturnos e de fim-de-semana .

Conhecendo já o custo fixo, importa saber quantos quilómetros deveremos percorrer para que o total de receitas iguale o total de despesas. Para tal precisamos de calcular a Margem de Contribuição.
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MARGEM DE CONTRIBUIÇÃO
Temos portanto que o Ponto de Equilibrio, para um determinado período é o nível de atividade em que:
Total de Ganhos = Total de Custos Fixos + Total de Custos Variáveis

Do que resulta que a diferença entre o Total de Ganhos e o Total de Custos Variáveis é igual ao Total de Custos Fixos e designa-se por Margem de Contribuição
No caso do nosso exemplo, a margem de contribuição que pretendemos obter é de:
tabela02 height=

Ou,na medida em que pretendemos saber o nível de atividade expresso em quilómetros percorridos:
Km percorridos x Valor por Km = Total de Custos Fixos + Km percorridos x Custo Variável por Km

Pelo que:
Total de Custos Fixos = (Receita por Km – Custo Variável por Km) x Km percorridos
Sendo que o (Valor de Ganho por Km - Custo Variável por Km) se designa por Margem de Contribuição Unitária.

No nosso exemplo, a Margem de Contribuição Unitária será de:
Receita por Km – Custo Variável por Km = Margem de Contribuição Unitária
Ou seja, € 0,578 - € 0,11 = € 0,468

Na medida em que conhecemos a margem contribuição de cada quilómero percorrido, é fácil calcular o número de quilómetros a percorrer para assegurar o reembolso dos custos fixos, tal como demonstra o gráfico abaixo. Os cálculos agora apresentados significam que o nosso táxi terá um prejuízo de € 0,468, por cada quilómetro percorrido a menos do que os 44.293. Pelo contrário, registará um lucro de idêntico valor, para cada quilómetro adicional percorrido.
Este cálculo pode, também, ser representado graficamente:
tabela02 height=

Que tipo de concusões se podem retirar, a partir da construção deste indicador?
Em primeiro lugar, qual o nível de atividade necessário, para assegurar a cobertura de todos os custos, quer fixos, quer variáveis, definindo, assim, objetivos a cumprir.
Em segundo lugar, esta análise permite constatar a rigidez da atividade táxi, muito determinada pelo peso significativo dos custos fixos (em que os custos com pessoal representam mais de 50% do total).

Em terceiro lugar, verificar que o nível de margem de contribuição é determinante na exploração táxi e que esta resulta, essencialmente, do valor de receita por quilómetro e, em menor grau, do custo com combustível.
Na medida em que a tarifa do serviço táxi é fixada administrativamente, a melhoria da receita por quilómetro vai depender, exclusivamente, do “mix” de serviços realizados, nomeadamente do peso dos serviços de curta distância (até 5-6 km), em tarifa 1, em que o valor médio por quilómetro se pode aproximar facilmente dos € 0,80 e da ponderação a estabelecer com serviços em tarifa noturna (em média mais 20% de receita). Em próximo artigo explicaremos como criar uma folha de cálculo (em Excel) que possibilite um cálculo simplificado de diferentes alternativas.

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