8 February 2019

Táxis do século passado.
Manter ou substituir?

Armando Casanova - Economista
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Alguns indicadores recentes apontam para que pelo menos 15 a 20% da frota de táxis a circular na cidade de Lisboa foram fabricados antes do ano 2000.
É dominante, na opinião pública, a ideia de que a frota de táxis está envelhecida e de que a proporção de táxis do século passado é ainda superior.
A nível nacional, o peso das viaturas mais antigas deverá ser semelhante, ainda que ocorram variações significativas, conforme as regiões.
Um táxi do século passado é uma viatura com um mínimo de 18 anos de atividade, que não corresponde às normas europeias de emissões de poluentes.
Até hoje, apenas o município de Lisboa regulou limitações de acesso e circulação para estas viaturas, devendo no entanto esperar-se a aplicação de limitações noutros municípios (nomeadamente urbanos), bem como um progressivo agravamento dessas limitações.
Não há dúvida de que as limitações de circulação que vierem a ser estabelecidas (ou já em vigor) condicionam significativamente a atividade dos táxis que não estiverem conforme com as normas.
A questão que se coloca é, assim, a seguinte:
• Deve aguardar-se pela entrada em vigor das limitações de circulação, para só então proceder à troca da viatura?
• Ou pelo contrário, argumentos exclusivamente económicos aconselham a antecipação da decisão da substituição?

Para responder a esta questão importa analisar os impactos de diversos custos relacionados com a aquisição da viatura e o seu funcionamento, na exploração táxi.

CONSUMO DE COMBUSTÍVEL
Em qualquer ambiente de exploração, as viaturas fabricadas até 2000 apresentam um consumo de combustível superior ao das viaturas mais recentes. Não faz grande sentido calcular consumos médios para o conjunto do Sector, na medida em que estas médias vão depender do tipo de viatura.
No entanto, para tipos de viatura idênticos, com perfis de utilização também idênticos, as diferenças de consumo de gasóleo encontradas variaram entre os 1,5 litros por 100 km e os 2,8 litros, também por 100 km. Nos dois casos estamos perante valores extremos, pelo que se optou por calcular a diferença de custo correspondente a uma diferença de consumo de 2 litros por cada 100 km (ou seja, as viaturas fabricadas até 2000 consomem mais 2 litros de gasóleo em cada 100 km do que as viaturas fabricadas em 2016/2017).
Assim, para um custo médio por litro de gasóleo de € 1,110 (média de Junho de 2018, sem IVA), a diferença de custo por cada quilómetro percorrido será de € 0,0222 (um pouco mais de 2 centimos).

DESPESAS DE MANUTENÇÃO
No que respeita às despesas de manutenção, incluindo reparações correntes, mas não serviço de pneus, a diferença de custo por quilómetro estima-se em € 0,0231. Para obter este valor, selecionou-se um grupo de viaturas fabricadas até ao ano 2000 e um outro grupo de viaturas entradas ao serviço em 2015/2016, com pelo menos um ano de atividade. Foram somadas as despesas dessas viaturas em cada ano completo, excluindo as despesas com serviço de pneus e as grandes reparações (os pneus foram excluidos porque em principio implicam custos semelhantes, as grandes reparações porque não tendo um carater sistemático não podem ser generalizadas).
A partir desse custo de manutenção anual procedeu-se à divisão pelo número de quilómetros percorridos por cada viatura, tendo-se encontrado custos por quilómetro de € 0,0334 para as viaturas fabricadas até ao ano 2000 e custos por quilómetro de € 0,0103 para as viaturas mais recentes.

IMOBILIZAÇÃO das VIATURAS
A imobilização das viaturas, nomeadamente por necessidade de intervenção oficinal, pode constituir um acréscimo de custos significativo, a par de uma perda de receita, de montante superior.
Tendo em conta o valor médio faturado por quilómetro, um dia de imobilização pode traduzir-se em perdas de receita que variam como mostra a tabela 1. Naturalmente que, nos casos em que se verifica uma forte sazonalidade, a época do ano em que a viatura está imobilizada é muito importante. Por exemplo, no caso do Algarve, a quebra de receita de uma imobilização no Inverno é muito inferior ao valor médio mas, em compensação, uma imobilização de um dia no Verão traduz-se em quebras de receita muito mais elevadas.
A agravar os riscos da perda de receita acresce que se numa viatura nova é possível programar a maior parte dos períodos de imobilização, tal já não será possível numa viatura com 18 ou mais anos. A imobilização pode mesmo ocorrer no período do ano de maior receita diária.

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Esta quebra de receita é coincidente com a manutenção dos gastos fixos (mas não se soma). Referem-se, apenas, 3 gastos fixos, a título de exemplo, designadamente o seguro profissional, entre € 2,74 e € 3,29 por dia, as despesas de contabilidade, € 2,79 diários e finalmente os custos com pessoal, de € 42,63 também por dia (mesmo quando não existam empregados, o custo existe, traduzindo-se em perdas de remuneração do industrial), num mínimo, só no conjunto destes custos fixos, de €48,26 diários, para uma viatura com um motorista, custo que sobe naturalmente para € 90,89 diários quando estamos perante dois motoristas.
Do ponto de vista dos custos fixos, o montante registado em 5 dias para as viaturas percorrendo 30.000 ou 40.000 km (conforme o sediamento) é de € 241,30 e para as viaturas baseadas na Grande Lisboa e Algarve percorrendo em média 60.000 km por ano, de € 349,90 (tendo em conta que em geral deverão ter mais de um motorista, mas em média não terão 2, consideramos 1,5).

CUSTO DE AQUISIÇÃO
O custo de aquisição de uma viatura para serviço táxi depende, naturalmente, da marca e modelo de viatura considerada.
Calculamos o custo médio de aquisição, sem IVA, para uma gama de 8 modelos, das marcas com melhores ofertas no mercado.
O preço médio encontrado foi de € 11.883 (naturalmente sem IVA), com os preços considerados variando entre um mínimo de € 9.474 e o máximo de € 14.550.
Se considerarmos também os custos de financiamento vamos encontrar, num período de 5 anos, um custo total de aquisição de € 12.496,52, ou € 2.499,30 por ano.
Faz sentido, em relação a este custo, considerar o benefício fiscal indireto, resultante da redução do IRC a pagar pelo industrial. Tendo em conta que a taxa aplicável será, normalmente, de 17%, a redução de IRC em cada um dos 5 anos poderá alcançar os € 424,88, reduzindo assim o custo de aquisição efetivo a € 2.074,42.

CONCLUSÕES
Para avaliar o impacto económico da subsituição da viatura comparamos o custo por km da aquisição, com os custos por km da não aquisição (tabela 2).

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Verifica-se, assim, que com exceção das viaturas que percorrem 30.000 km por ano, nas cidades médias, a introdução de viaturas novas é vantajosa, do ponto de vista económico em todos os outros casos. Também para estas se verificará vantagem, sempre que:
• O diferencial de consumo com combustível e manutenção seja francamente superior
• O número de dias de imobilização aumente significativamente com o risco de incidir nos períodos de maior receita.

Em qualquer quadro, verifica-se a ocorrência de benefício económico na substituição da viatura, sempre que esta, em qualquer região, percorra mais de 40.000 km/ano.

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